terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Anjos da guarda (3)


Até ao final dos anos 30 do século XX, os sinais eram feitos ora com o barrete que o sinaleiro usava, ora com a boina ou o boné, ou ainda com um pano qualquer, até com a própria camisa.
De essa altura para cá, começaram a ser feitos com bandeiras (das quais ainda existem os originais), como já foi referido anteriormente.
O sítio onde as embarcações esperavam os sinais (antes de o molhe estar feito), era na "pedra das sete braças" ou a povoação do Barril da Carvoeira, à vista de quem está no mar.
Hoje o sinaleiro já não faz os sinais com as bandeiras mas com o sistema de rádio com que todas as embarcações estão apetrechadas.
Muito importante era também o trabalho feito pelas mulheres dos pescadores, quando "os seus homens" (homes) se encontravam no mar à noite e este começava a piorar. Eram elas que no largo de S. Sebastião ou na ponta de Santa Marta (Pedra do Fogo) acendiam fogueiras, para os seus maridos se aperceberam do estado mais alterado do mar.
Entre todas essas mulheres anónimas, uma se distinguiu: a "Tia" Maria Garamanha (alcunha Maria dos Preparos), mulher do "Tio" Bernardino Garamanha. Tinha ela o hábito, sempre que o seu marido se encontrava a pescar à noite, "marcar o mar" e quando via que este piorava, imediatamente acendia uma fogueira na Ponta de Santa Marta. Este sinal que o marido conhecia, assim como todos os outros pescadores, era um alerta para regressarem imediatamente a terra.
Era também hábito, por essa época, quando havia nevoeiro ("néuba"), soprar em grandes búzios que emitiam um som característico entendido por todos os pescadores.
Até há bem pouco tempo podia-se recolher estes testemunhos "vivos" nas pessoas do "Ti" José dos Reis Marques "Zé Pestana", "Ti" Joaquim Fortunato "Fala Grossa", "Ti" Francisca da Silva "Rancolha", "Ti" Anastácio Casado e "Ti" Joaquim Marrão.

Devido ao carisma destes ericeirenses e à sua importância como sinaleiros, deveria considerar-se a sua homenagem na forma de uma estátua num dos locais onde exerciam essa actividade.
"Os Sinaleiros do Mar na Ericeira"
Leandro Miguel dos Santos - 1994

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